Atualizado em 24 de agosto de 2026 · Por Dr. Leonardo Ternis, ortopedista e médico do esporte

Resposta rápida: Ao comparar hidrogel ou ácido hialurônico no joelho, a ciência ainda não permite afirmar que um seja superior ao outro para artrose. Existem diferenças químicas reais entre as formulações, mas a maioria dos estudos comparativos foi desenhada para mostrar “não inferioridade”, não superioridade clínica. A escolha deve considerar as características do paciente, não apenas o nome comercial ou o preço do produto.

Uma pergunta tem aparecido com frequência no consultório:

“Doutor, me ofereceram um hidrogel ou um ácido hialurônico bioativo. Ele é melhor do que o ácido hialurônico tradicional?”

A dúvida é compreensível. Nos últimos anos surgiram diferentes formulações de ácido hialurônico para infiltração no joelho, acompanhadas de termos como hidrogel, bioativo, reticulado, alto peso molecular, longa duração e tecnologia avançada.

Esses termos podem representar diferenças reais entre os produtos. O problema começa quando essas diferenças são transformadas automaticamente na afirmação: “esse produto é superior aos outros”. Será que a ciência já demonstrou isso? A resposta é mais complexa.

Nem todo ácido hialurônico é igual

O ácido hialurônico utilizado para viscossuplementação pode variar bastante entre os produtos:

  • concentração;
  • peso molecular;
  • volume aplicado;
  • origem e processo de fabricação;
  • grau de reticulação;
  • modificação química da molécula;
  • número de aplicações;
  • propriedades reológicas e viscoelásticas.

Portanto, não existe simplesmente “o ácido hialurônico”. Existem diferentes formulações de ácido hialurônico.

Na prática clínica, são utilizados produtos tradicionais à base de hialuronato de sódio e também formulações modificadas ou reticuladas. Essas diferenças podem alterar o comportamento da substância dentro da articulação. Mas uma propriedade química diferente não significa, automaticamente, um resultado clínico superior.

O que é o chamado “hidrogel” de ácido hialurônico?

Aqui é importante evitar confusão: a palavra hidrogel pode ser utilizada para materiais bastante diferentes.

No contexto da viscossuplementação, alguns produtos são derivados de ácido hialurônico modificados para formar estruturas mais estáveis e com propriedades viscoelásticas específicas. Um exemplo é a hexadecilamida do hialuronato de sódio, conhecida em estudos como HYADD4 ou HYADD4-G. Ela deriva do próprio ácido hialurônico, que recebe uma modificação química capaz de mudar suas propriedades físicas. Por isso, algumas apresentações comerciais são descritas como hidrogéis à base de ácido hialurônico.

Isso é diferente, por exemplo, do hidrogel de poliacrilamida, que é outro tipo de material. Colocar todos esses produtos na mesma categoria apenas como “hidrogel” pode gerar confusão.

O que significa “bioativo”?

“Bioativo” é outra palavra que merece atenção. Ela pode indicar que um material apresenta interações com células e tecidos.

Existem estudos laboratoriais mostrando que derivados modificados do ácido hialurônico podem influenciar mediadores inflamatórios e processos relacionados ao metabolismo da cartilagem. Isso é cientificamente interessante. Mas existe uma diferença entre demonstrar um mecanismo biológico em laboratório e demonstrar que um produto produz um resultado clínico superior em pacientes.

Mais importante ainda: bioatividade não significa automaticamente regeneração da cartilagem.

O ácido hialurônico tradicional funciona?

A viscossuplementação com ácido hialurônico é estudada há décadas. Diversos ensaios clínicos e meta-análises avaliaram seus efeitos sobre dor, rigidez, função e qualidade de vida.

Os resultados da literatura não são completamente uniformes. Alguns estudos demonstram melhora clinicamente relevante em pacientes selecionados, enquanto outras análises consideram o benefício médio pequeno quando comparado ao placebo. Isso explica por que diferentes sociedades médicas apresentam recomendações diferentes em suas diretrizes.

Uma questão importante pode ser menos “qual marca é a melhor?” e mais “qual paciente é um bom candidato para viscossuplementação?” — o mesmo raciocínio que já vale, por exemplo, para o uso do PRP na artrose: tecnologia diferente não é sinônimo automático de resultado superior.

Peso molecular maior significa resultado melhor?

Não necessariamente.

É comum encontrar a ideia de que quanto maior o peso molecular do ácido hialurônico, melhor será o resultado. Existem fundamentos biomecânicos para estudar essa hipótese, mas os resultados clínicos não são tão simples. Características laboratoriais de um produto não podem ser utilizadas isoladamente para prever superioridade clínica.

O chamado hidrogel é superior ao ácido hialurônico convencional?

Até o momento, não podemos fazer essa afirmação de maneira geral.

Estudos comparativos recentes mostram que formulações modificadas podem apresentar melhora de dor e função, mas isso não permite concluir simplesmente que “hidrogel é melhor do que ácido hialurônico tradicional”. Em alguns estudos, o objetivo estatístico é demonstrar não inferioridade, e não superioridade.

Esse detalhe é importante: não inferioridade significa que o produto testado não teve desempenho clinicamente pior do que o comparador dentro da margem definida pelo estudo. Não significa, por si só, que ele seja melhor.

E a duração do efeito?

Outro argumento frequente é que determinados produtos modificados permaneceriam mais tempo dentro da articulação. Essa possibilidade é biologicamente plausível: modificações químicas e reticulação podem aumentar a estabilidade do produto e alterar seu tempo de degradação.

Mas, novamente, permanecer mais tempo dentro da articulação não significa necessariamente produzir maior benefício clínico. A pergunta mais importante não é apenas “quanto tempo a molécula permanece?”, mas “quanto tempo o paciente apresenta melhora clinicamente relevante?”. Esses dois conceitos não são iguais.

Um produto mais caro é necessariamente melhor?

Não.

O preço de uma tecnologia médica pode depender de patente, processo de fabricação, importação, concentração, tecnologia de modificação molecular e posicionamento de mercado. Nenhum desses fatores, isoladamente, comprova superioridade clínica.

Na medicina baseada em evidências, um produto mais caro deveria demonstrar algum benefício adicional relevante, como maior redução da dor, maior melhora funcional, maior duração do efeito, menor necessidade de reaplicação, menor taxa de eventos adversos ou melhor custo-benefício.

E os ácidos hialurônicos chamados “tradicionais”?

Produtos contendo hialuronato de sódio são utilizados há muitos anos e continuam fazendo parte da prática de viscossuplementação.

O fato de uma formulação ser menos recente não significa que ela tenha deixado de funcionar. Da mesma forma, o fato de um produto ter tecnologia mais recente não significa automaticamente que ele produzirá um resultado melhor para aquele paciente.

Na prática, existem diferentes apresentações comerciais com concentrações, pesos moleculares e protocolos de aplicação distintos. Sem ensaios comparativos diretos entre produtos específicos, não é cientificamente correto criar um ranking de marcas.

Qual ácido hialurônico escolher?

A escolha deve considerar mais do que o nome comercial:

  • idade do paciente;
  • intensidade da dor;
  • grau radiográfico da artrose;
  • presença de sinovite ou derrame;
  • alinhamento do joelho;
  • nível de atividade física;
  • obesidade;
  • tratamentos anteriores;
  • resposta a infiltrações prévias;
  • custo e disponibilidade;
  • características do produto;
  • experiência do médico.

Também é importante discutir expectativas. O objetivo habitual da viscossuplementação é reduzir sintomas e melhorar função. Ela não deveria ser apresentada como uma forma garantida de reconstruir uma cartilagem destruída.

“Hidrogel bioativo faz a cartilagem voltar?”

Essa é provavelmente a parte que mais exige cuidado.

Existem pesquisas laboratoriais muito interessantes mostrando propriedades condroprotetoras e anti-inflamatórias de derivados modificados do ácido hialurônico. Existem também hidrogéis experimentais desenvolvidos especificamente para engenharia de tecidos e regeneração da cartilagem.

Mas isso não significa que uma viscossuplementação realizada no consultório tenha demonstrado fazer a cartilagem humana perdida pela artrose crescer novamente. São níveis de evidência diferentes.

Um estudo pode demonstrar que determinada molécula reduz mediadores inflamatórios, interage com condrócitos, diminui enzimas degradadoras ou apresenta propriedades condroprotetoras. Tudo isso é interessante. Mas para afirmar regeneração de cartilagem em humanos seria necessário demonstrar estruturalmente essa regeneração em ensaios clínicos adequados.

Melhora de dor não é prova de regeneração.

Então os novos produtos não oferecem nenhuma vantagem?

Também seria incorreto afirmar isso.

Novas formulações podem oferecer vantagens potenciais, como maior concentração, propriedades viscoelásticas diferentes, maior estabilidade molecular, aplicação em menor número de sessões ou maior conveniência para determinados pacientes. E algumas poderão demonstrar resultados clínicos superiores em estudos futuros.

O ponto principal é outro: uma possível vantagem tecnológica precisa ser demonstrada clinicamente. Ela não deve ser presumida.

O que eu explico aos meus pacientes?

Quando um paciente pergunta se determinado “hidrogel”, “ácido hialurônico bioativo” ou “ácido de última geração” é melhor, costumo separar a questão em quatro perguntas:

  1. Esse produto funciona? Existe evidência de melhora de dor e função?
  2. Ele funciona melhor que alternativas? Existem estudos comparativos adequados?
  3. O efeito dura mais? Foi demonstrado clinicamente ou apenas inferido pelas características do produto?
  4. O custo adicional vale a pena? Existe benefício suficiente para justificar a diferença?

São perguntas diferentes — e ajudam a transformar uma discussão de marketing em uma decisão médica baseada em evidências.

Conclusão: hidrogel é melhor do que ácido hialurônico tradicional?

Hoje, a resposta mais correta é: não existe evidência suficiente para afirmar, de maneira geral, que todo produto chamado de “hidrogel”, “bioativo” ou “de nova geração” seja superior aos ácidos hialurônicos tradicionais para artrose do joelho.

Existem diferenças químicas e tecnológicas reais entre as formulações. Algumas podem trazer vantagens específicas. Mas os resultados clínicos dependem não apenas do produto, como também da seleção adequada do paciente.

Por isso, a decisão não deveria ser baseada exclusivamente em nome comercial, novidade, marketing ou preço. Deveria ser baseada em evidências, características do paciente e experiência clínica. Quando um novo tratamento realmente demonstrar ser superior, a ciência será capaz de mostrar isso.

Até lá, é importante não transformar uma tecnologia interessante em uma promessa maior do que aquilo que os estudos demonstraram.

Na medicina, mais novo não significa necessariamente melhor — e mais caro também não.

Conteúdo educativo. Não substitui consulta, exame físico ou avaliação médica individualizada.

Referências científicas

  1. Ensaio clínico sobre hidrogel de poliacrilamida versus ácido hialurônico. PubMed
  2. Seguimento de longo prazo de hidrogel de poliacrilamida. PubMed
  3. Revisão sobre hidrogel de poliacrilamida na osteoartrite. PubMed
  4. Literatura sobre HYADD4 / derivados de ácido hialurônico e efeitos biológicos. PMC
  5. Revisão sobre hidrogéis à base de ácido hialurônico e aplicações intra-articulares. PMC