Atualizado em 24 de agosto de 2026 · Por Dr. Leonardo Ternis, ortopedista e médico do esporte

Resposta rápida: Sim, os riscos dos anabolizantes são reais e cientificamente documentados quando usados sem indicação médica. Estudos recentes associam o uso não médico de esteroides anabolizantes a até 3,6 vezes mais risco de insuficiência cardíaca e quase 9 vezes mais risco de cardiomiopatia, além de infertilidade, supressão hormonal, alterações no fígado e nos rins. No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 proíbe a prescrição médica dessas substâncias com finalidade estética ou para ganho de massa muscular.

Ganhar músculos mais rápido pode parecer tentador. Mas o que acontece com o coração, os hormônios, a fertilidade e outros órgãos quando esteroides anabolizantes são usados sem indicação médica? As evidências científicas mais recentes ajudam a responder.

Nas academias e, principalmente, nas redes sociais, o uso de esteroides anabolizantes vem sendo cada vez mais normalizado. Termos como “ciclo”, “protocolo”, “reposição”, “dose baixa” ou “acompanhamento” podem transmitir a impressão de que existe uma maneira segura de utilizar hormônios para acelerar o ganho de massa muscular.

O problema é que a aparência física não mostra o que está acontecendo dentro do organismo. Uma pessoa pode estar jovem, forte, com baixo percentual de gordura e aparentemente saudável — enquanto apresenta alterações de pressão arterial, colesterol, produção hormonal, fertilidade e até da estrutura do coração. E as evidências acumuladas nos últimos anos estão tornando esses riscos cada vez mais claros.

O que são esteroides anabolizantes?

Os esteroides androgênicos anabolizantes (EAA) são substâncias relacionadas à testosterona, com efeitos anabólicos (aumento da síntese proteica e da massa muscular) e efeitos androgênicos (relacionados às características sexuais masculinas).

Existem situações médicas específicas em que hormônios podem ser indicados — isso é completamente diferente de utilizar testosterona ou outros anabolizantes em doses suprafisiológicas com objetivo estético ou para melhorar o desempenho esportivo. Tratar uma doença devidamente diagnosticada não é a mesma coisa que usar hormônios para aumentar músculos em uma pessoa saudável.

No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.

“Mas se eu fizer exames, não fica seguro?”

Não necessariamente. Exames laboratoriais são importantes para identificar algumas complicações, mas ter exames normais não transforma uma exposição de risco em uma prática segura. Muitos problemas não aparecem em um hemograma ou numa dosagem de testosterona — alterações cardiovasculares, por exemplo, podem ocorrer progressivamente durante anos.

Também não existe evidência científica robusta estabelecendo um “ciclo seguro”, uma “dose estética segura” ou uma combinação de medicamentos capaz de neutralizar todos os riscos do uso não médico de anabolizantes.

O coração talvez seja o maior motivo para preocupação

Um estudo publicado na revista Circulation acompanhou 1.189 usuários de esteroides anabolizantes e comparou seus desfechos com mais de 59 mil controles, com acompanhamento médio de aproximadamente 11 anos. Os usuários apresentaram maior risco de:

  • infarto agudo do miocárdio: aproximadamente 3 vezes maior;
  • procedimentos de revascularização coronariana: aproximadamente 3 vezes maior;
  • tromboembolismo venoso: aproximadamente 2,4 vezes maior;
  • arritmias: aproximadamente 2,3 vezes maior;
  • insuficiência cardíaca: aproximadamente 3,6 vezes maior;
  • cardiomiopatia: risco quase 9 vezes maior.

É importante entender que esse é um estudo observacional e, portanto, não permite atribuir toda diferença exclusivamente aos anabolizantes. Entretanto, a magnitude das associações e a concordância com outras linhas de evidência tornam os resultados particularmente preocupantes. Os riscos dos anabolizantes deixaram de ser apenas uma preocupação teórica baseada em alterações de colesterol — estamos observando associação com doenças cardiovasculares reais.

O coração de quem usa anabolizantes pode mudar

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no International Journal of Cardiology, reunindo 35 estudos e aproximadamente 2.000 homens, comparou atletas que utilizavam anabolizantes a atletas de musculação que não utilizavam essas substâncias. Foram observadas diferenças na estrutura e no funcionamento cardíaco, incluindo:

  • aumento da massa do ventrículo esquerdo;
  • aumento da espessura das paredes cardíacas;
  • alteração do global longitudinal strain, um marcador sensível da função cardíaca;
  • redução da fração de ejeção;
  • sinais de remodelamento cardíaco desfavorável.

Ou seja, não estamos falando apenas do chamado “coração de atleta”. A exposição aos anabolizantes esteve associada a alterações adicionais em comparação com pessoas que também treinavam musculação, mas não utilizavam essas drogas. Uma revisão publicada em 2026 reforça mecanismos capazes de explicar esses achados, incluindo hipertensão, dislipidemia, inflamação, disfunção endotelial, trombose e remodelamento do músculo cardíaco.

Pressão arterial e colesterol também podem piorar

Uma meta-análise recente encontrou associação entre uso de anabolizantes e aumento médio de aproximadamente 12 mmHg na pressão sistólica e 8 mmHg na pressão diastólica, além de aumento do LDL — o “colesterol ruim”.

Isso importa porque hipertensão e alterações do perfil lipídico participam diretamente do desenvolvimento de aterosclerose, infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca ao longo da vida. O fato de algo não ter acontecido ainda não significa que nenhum dano esteja ocorrendo.

“Minha testosterona fica alta. Então como posso ter hipogonadismo?”

Quando testosterona ou outros andrógenos são administrados externamente, o cérebro percebe que existe grande quantidade de hormônio circulando e reduz os sinais responsáveis por estimular os testículos — o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal passa a ser suprimido.

Com isso, pode ocorrer redução da produção natural de testosterona e de espermatozoides. Entre as possíveis consequências estão:

  • diminuição do volume testicular;
  • redução da produção de espermatozoides (oligozoospermia ou azoospermia);
  • infertilidade;
  • alterações da libido;
  • disfunção erétil;
  • sintomas de hipogonadismo após a suspensão.

A fertilidade sempre volta depois de parar?

Não necessariamente de forma rápida. Uma revisão sistemática mostrou que a produção de espermatozoides pode levar mais de um ano para normalizar após a interrupção em alguns pacientes. Outros trabalhos descrevem recuperação bastante variável, podendo ser demorada principalmente após exposição prolongada ou uso de doses elevadas.

“Eu uso agora e, quando quiser ter filhos, simplesmente paro” não é uma estratégia sobre a qual seja prudente construir um planejamento reprodutivo.

E depois que a pessoa interrompe os anabolizantes?

A interrupção também pode ser uma fase difícil. Após períodos de supressão hormonal, algumas pessoas podem apresentar queda importante da testosterona, redução da libido, dificuldade de ereção, perda de energia e de performance, perda de parte da massa muscular adquirida, alterações do humor, ansiedade e sintomas depressivos.

Esse contraste entre o período de exposição e o período de retirada é um dos fatores que pode favorecer o retorno ao uso: a pessoa usa, melhora esteticamente, interrompe, sente-se pior e volta a usar. O problema deixa então de ser apenas estético ou hormonal e passa a envolver também aspectos psicológicos e comportamentais.

O fígado também pode sofrer

Nem todos os anabolizantes apresentam a mesma toxicidade hepática — os esteroides orais 17-alfa-alquilados, por exemplo, merecem atenção especial. O uso dessas substâncias pode estar relacionado a alterações de enzimas hepáticas e, em determinadas situações, a complicações mais importantes, como colestase, lesão hepática induzida por drogas, peliose hepática, adenomas hepáticos e, mais raramente, tumores hepáticos.

Um medicamento não precisa produzir sintomas para estar causando alterações internas.

E os rins?

A exposição a anabolizantes pode coexistir com fatores como hipertensão, dietas hiperproteicas, grande massa muscular, desidratação, uso de suplementos e utilização simultânea de múltiplas drogas. Revisões recentes descrevem associação entre abuso de anabolizantes, proteinúria e alterações estruturais renais, embora ainda existam limitações na literatura e necessidade de estudos longitudinais melhores.

Mais músculo não significa necessariamente tendões mais resistentes

O músculo pode aumentar sua força rapidamente durante o uso de anabolizantes, mas o tendão não necessariamente acompanha essa adaptação na mesma velocidade. Estudos experimentais e clínicos sugerem alterações da estrutura do colágeno e das propriedades mecânicas dos tendões associadas aos esteroides anabolizantes.

A literatura descreve associação com rupturas importantes, especialmente de tendões como peitoral maior, bíceps, tríceps e quadríceps. A droga pode permitir que o músculo produza uma força para a qual o restante do sistema musculoesquelético ainda não está preparado.

“Mas conheço alguém que usa há anos e nunca teve problema”

Esse é um dos argumentos mais comuns, mas contém um erro básico de interpretação de risco. Fumar não causa câncer em todos os fumantes. Hipertensão não causa infarto em todas as pessoas hipertensas. Álcool não provoca cirrose em todos que bebem. Da mesma maneira, uma substância não precisa causar uma complicação em 100% dos usuários para representar um risco importante — em medicina, trabalhamos com probabilidades.

Além disso, algumas alterações permanecem silenciosas por muitos anos. Uma pessoa pode ter hipertrofia cardíaca, alteração do colesterol, supressão hormonal ou redução da fertilidade sem perceber qualquer sintoma. Usar o amigo da academia como prova de segurança é muito diferente de analisar milhares de pacientes por meio de estudos científicos.

“E se for pouca dose?”

A probabilidade de efeitos adversos geralmente está relacionada a fatores como substância utilizada, dose, tempo de exposição, associação de diferentes drogas, predisposição individual, idade e doenças preexistentes. É razoável admitir que riscos não sejam iguais para todas as exposições, mas isso é muito diferente de afirmar que exista uma dose estética comprovadamente segura.

Até hoje, a literatura não estabeleceu um regime suprafisiológico para ganho de massa muscular que possa ser considerado isento de risco. E, na prática, o uso recreativo frequentemente envolve combinações de diferentes substâncias, doses variáveis e produtos cuja procedência nem sempre é confiável.

“Mas com acompanhamento médico fica seguro?”

Não totalmente. Acompanhamento médico pode identificar precocemente algumas complicações e é particularmente importante para quem já fez ou faz uso dessas substâncias, mas monitorar um risco não significa eliminar o risco.

É possível acompanhar pressão arterial, hemograma, função hepática, perfil lipídico, função hormonal e reprodutiva e, quando indicado, realizar investigação cardiovascular. Mesmo assim, não existe um exame capaz de garantir que um infarto, uma arritmia, uma cardiomiopatia, infertilidade ou outro evento adverso não ocorrerá.

O ganho muscular existe. Esse não é o ponto da discussão.

Negar que anabolizantes aumentem massa muscular e força seria cientificamente incorreto — eles aumentam, e é justamente por funcionarem que são utilizados.

A pergunta que vale fazer é: quanto risco você está disposto a assumir para acelerar um resultado estético que também pode ser construído através de treinamento, alimentação, sono e constância? O benefício é facilmente percebido no espelho. Os riscos cardiovasculares, hormonais e metabólicos muitas vezes não são — essa assimetria ajuda a explicar por que tantas pessoas subestimam as consequências.

Redes sociais mudaram nossa percepção do que é um corpo normal

Hoje somos expostos diariamente a físicos extremamente musculosos e com percentual de gordura muito baixo, muitas vezes apresentados como consequência exclusiva de dieta, disciplina, suplementação, treino e “genética”. Isso pode modificar nossa referência do que é um corpo naturalmente alcançável.

O resultado é perigoso: uma pessoa treina durante dois ou três anos, consegue resultados excelentes, mas passa a considerá-los insuficientes porque se compara continuamente com físicos construídos com auxílio farmacológico. A insatisfação cresce, e o anabolizante passa a parecer não uma escolha, mas o “próximo passo”. Não deveria ser.

Se você já usa anabolizantes, esconder isso do médico não ajuda

Conscientizar não significa abandonar ou julgar quem já utiliza essas substâncias — pelo contrário. Se você atualmente utiliza ou já utilizou esteroides anabolizantes, é importante informar isso ao médico, porque essa informação pode mudar a interpretação de exames de pressão arterial, colesterol, hematócrito, enzimas hepáticas, testosterona, LH e FSH, além de sintomas cardiovasculares e psiquiátricos.

Principalmente após uso prolongado, interromper ou iniciar medicamentos por conta própria para fazer uma chamada “terapia pós-ciclo” também não deve ser tratado como algo trivial. A avaliação deve ser individualizada.

A mensagem que eu gostaria que todo jovem soubesse antes do primeiro ciclo

Antes de utilizar anabolizantes apenas para transformar o corpo, vale fazer uma pergunta simples: se você pudesse enxergar seu coração, suas artérias, seus testículos, seu colesterol e sua produção hormonal com a mesma facilidade com que enxerga seus músculos no espelho, tomaria a mesma decisão?

A ciência não permite afirmar que toda pessoa que utilizar anabolizantes desenvolverá uma complicação grave — também não seria correto dizer isso. Mas as evidências atuais permitem afirmar algo suficientemente importante: o uso não médico de esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas está associado a riscos cardiovasculares, hormonais, reprodutivos, hepáticos, psicológicos e musculoesqueléticos que não deveriam ser banalizados em troca de um resultado estético mais rápido.

O resultado aparece rápido. O preço pode aparecer anos depois.

Nota ao leitor: este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta, diagnóstico ou acompanhamento médico individualizado.

Referências científicas e institucionais

  1. Windfeld-Mathiasen J, et al. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025. PubMed
  2. Cavalcante DN, et al. Anabolic-androgenic steroids on cardiac structure and function in resistance-trained athletes: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Cardiology. 2026. PubMed
  3. Nascimento HS, et al. Anabolic-androgenic steroids at supraphysiological doses: cardiovascular impacts and pathophysiological mechanisms. Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology. 2026. PubMed
  4. Azevedo RA, et al. Abusive use of anabolic androgenic steroids, male sexual dysfunction and infertility: an updated review. Frontiers in Toxicology. 2024. PubMed
  5. Rajmil O, Moreno-Sepulveda J. Recovery of spermatogenesis after androgenic anabolic steroids abuse in men: a systematic review. PubMed
  6. Adverse Effects of Anabolic Androgenic Steroid Abuse in Athletes and Physically Active Individuals: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2025. PubMed
  7. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023
  8. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Comunicado sobre esteroides anabolizantes e similares